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Análise macro

Motivos pelos quais revimos em baixa as nossas previsões para o crescimento global

É a primeira vez que baixamos as nossas expetativas para o crescimento global desde 2016. Seguem-se os motivos.

06/07/2018

Embora o crescimento se mantenha forte, existem diversos fatores que, na nossa opinião, vão ter um impacto negativo no crescimento global em 2018 e em 2019.

Por conseguinte, baixámos as nossas previsões pela primeira vez em quase dois anos: de 3,5% para 3,4% em 2018 e de 3,3% para 3,2% em 2019. Entretanto, aguarda-se uma subida da inflação global e aumentámos as nossas previsões para 2018 de 2,4% para 2,7%, com implicações para a política monetária em todo o mundo.

Figura 1: Previsão da Schroders para o crescimento do PIB real em 2018 e 2019

Fonte: Schroders, Thomson Datastream, Consensus Economics, maio de 2018

Um início de ano fraco

O ano não teve um início particularmente forte na maioria das economias. Na Europa, um inverno rigoroso, um surto de gripe, as greves nos transportes e a data da Páscoa parecem ter afetado os números relativos ao crescimento.

Por seu lado, nos EUA, o crescimento também abrandou. O crescimento tinha recebido um impulso pontual no final do ano anterior, com a reconstrução após a época de furacões e o investimento em substituições, mas quando este este impacto se esbateu, recuou no primeiro trimestre de 2018.

Noutras regiões, algumas das economias de mercados emergentes também assistiram a um abrandamento dos dados do primeiro trimestre, nomeadamente a Rússia e o Brasil.

Embora muitos destes fatores se devam desvanecer agora, ajudando a atividade a normalizar no atual trimestre, estamos cientes de que os principais indicadores apresentam sinais contraditórios quanto a uma recuperação do crescimento no segundo trimestre. Além disso, a subida dos preços do petróleo e as tensões comerciais deverão contribuir para um abrandamento do crescimento.

Preços mais altos do petróleo

Os preços do petróleo subiram significativamente desde o início do ano por causa dos cortes de produção da OPEP e da provável reposição das sanções ao Irão no seguimento da cessação do acordo nuclear por parte do presidente Donald Trump. Isto irá afetar as despesas dos consumidores.

Nos EUA, por exemplo, a subida dos preços do petróleo custará cerca de 60 mil milhões de dólares aos consumidores. Obviamente que os consumidores estão já a poupar 120 mil milhões de dólares graças aos cortes fiscais aprovados pelo presidente Trump, mas isto significa que metade das suas poupanças se destinará a pagar a gasolina mais cara. Para quem se encontra entre os 20% com rendimentos mais baixos, as poupanças fiscais não chegam para contrabalançar o aumento dos preços da gasolina. De uma forma geral, as despesas reais de consumo deverão ser por isso mais baixas.

A pergunta que se impõe é se os trabalhadores poderão recuperar algum rendimento através de aumentos salariais. Até à data, os salários têm permanecido excecionalmente moderados, mas alguns dados recentes sugerem que isto poderá estar a mudar.

Entre os grandes mercados emergentes, o crescimento na Índia também deverá ser afetado pelo aumento dos preços do petróleo, devido à fatura da importação, enquanto a Rússia deverá ser beneficiada, ainda que este benefício seja limitado pelo impacto das sanções dos EUA.

Negociações comerciais tensas

Recorde-se que os EUA e a China trocam atualmente ameaças sob a forma da imposição de tarifas aduaneiras no valor de 50 mil milhões de dólares. Embora afete apenas uma pequena parte do comércio de cada país, e ainda menor do PIB (menos 0,5% no caso da China), o impacto sobre o crescimento poderá ser maior, uma vez que é improvável que a disputa termine com apenas uma ronda de tarifas aduaneiras.

A incerteza sobre as futuras relações comerciais deverá afetar as decisões das empresas, particularmente as exportadoras, no que se refere a contratar e investir. Em conjunto com determinadas medidas políticas, isto leva a uma revisão em baixa do crescimento chinês em 2019 (de 6,5% para 6,4%) que, por sua vez, é responsável por parte do ligeiro recuo nas expetativas de crescimento global em 2019.

Aumento da inflação

Os preços mais altos do petróleo levarão a um aumento da inflação a nível global. Mesmo nos EUA, prevemos que a inflação subjacente aumente ao longo dos próximos dois anos.

Na Europa, a combinação de preços mais altos da energia e de uma taxa de câmbio USD/euro mais baixa significa que a inflação também irá aumentar.

Nos mercados emergentes, a inflação permanece historicamente baixa, mas está a começar a subir no Brasil, Índia e Rússia.

Figura 2: Previsões da Schroders para a inflação em 2018 e 2019 (índice de preços no consumidor)

Fonte: Schroders, Thomson Datastream, Consensus Economics, maio de 2018 (ver a nota de rodapé 1)

O que significa isto em termos de política monetária?

Na maioria do mundo desenvolvido, prevemos uma política monetária mais restritiva. Nos EUA, antevemos que a Reserva Federal aumente as taxas de juro mais três vezes este ano e duas vezes no próximo ano, de modo a que a taxa Fed funds se fixe nos 3% em meados de 2019.

O Banco Central Europeu (BCE) deverá pôr fim aos estímulos quantitativos no 4.º trimestre deste ano e aumentar as taxas três vezes em 2019, encerrando uma era de taxas negativas na zona Euro. O Banco de Inglaterra deverá manter-se em suspenso até novembro, altura em que deverá existir uma maior clareza sobre o resultado das negociações do Brexit.

Nos mercados emergentes, esperamos que o banco central do Brasil evite mais estímulos e dê início a um ciclo de subidas graduais no final de 2019. Na Índia antecipamos uma restritividade ligeiramente mais rápida, devido à dependência económica do petróleo. Prevemos duas subidas este ano, com a primeira a ocorrer provavelmente em junho, elevando as taxas para 6,5%, e mais duas subidas em 2019.

Pelo contrário, uma inflação mais baixa e os receios relacionados com a liquidez significam que a China caminha noutra direção, com o Banco Popular da China (BPdC) a aliviar o rácio de reservas mínimas. Este define o montante mínimo de reservas obrigatórias que os bancos do país devem manter e é utilizado pelo banco central como uma forma de combater a inflação. Uma descida das taxas na China também parece garantida para 2019, com o crescimento a abrandar ainda mais devido a um enfraquecimento do sentimento decorrente das tensões comerciais.

Face a esta conjuntura, o dólar dos EUA deverá apreciar-se ainda mais a curto prazo, antes de enfraquecer em 2019 à medida que os bancos centrais de outros países derem início à uma maior restritividade monetária.

Expansão por agora, mas as previsões encaminham-se para a estagflação

Continuamos a prever mais um ano de expansão na economia mundial, mas à margem as previsões vão mais no sentido da estagflação, com maior inflação e menor crescimento do que anteriormente se previa. Isto é resultado do aumento dos preços do petróleo e da crescente ameaça de guerras comerciais.