Análise macro

Guerras comerciais: o que significam para a economia mundial?

A tensão comercial entre os EUA e a China está a aumentar, ambos os lados anunciaram uma subida nos direitos aduaneiros sobre determinados produtos de importação.

02/05/2018

Keith Wade

Keith Wade

Economista-Chefe e Estratega

Craig Botham

Craig Botham

Emerging Markets Economist

Noinício de abril, os EUA anunciaram direitos aduaneiros de 25% sobre 50 mil milhões de dólares de importações da China. A China respondeu com direitos aduaneiros de 25% sobre 50 mil milhões de dólares de exportações dos EUA. Os EUA têm agora como alvo mais 100 mil milhões de dólares de produtos chineses.

As regiõesmais óbvias que serão afetadas são os EUA e a China, mas qual delas deverá ficar pior e qual será o impacto no resto do mundo? 

EUA: empresas a operar na China podem ser o alvo 

Podia-se argumentar que, pelo facto de a China importar muito menos dos EUA do que os EUA importam da China, os chineses têm uma capacidade limitada de entrar numa guerra comercial convencional. No entanto, esta visão não contempla os outros meios de que a China dispõe para poder afetar os EUA.

Podem surgir medidas no sentido de dificultar a vida das empresas norte-americanas que operam na China. Por exemplo, o grupo nipo-coreano Lotte, que opera 99 supermercados na China, forneceu o terreno para o sistema de defesa antimísseis THAAD[1] na Coreia do Sul. Foi, em seguida, perseguido pelas autoridades chinesas, que tornaram impossível a operação de muitas lojas ao imporem normas de combate a incêndios muito rigorosas. Isso culminou com a saída forçada do grupo do mercado chinês.

Os EUA têm operações significativas na China: desde 1990, o investimento direto estrangeiro dos EUA na China totalizou 256,5 mil milhões de dólares. Deste modo, as empresas dos EUA estão expostas diretamente ao mercado chinês, com empresas como a Apple a gerar cerca de 20% das suas vendas totais na China, a Boeing cerca de 12% e a Nike 15% das suas receitas. Medidas como as que foram tomadas para com o Grupo Lotte podem colocar um sério risco à capacidade das empresas norte-americanas para operar na China.

China: mais resiliente

A China pode demonstrar mais resiliência numa guerra comercial do que os EUA. A imposição de direitos aduaneiros de 25% sobre bens chineses no valor de 50 mil milhões de dólares pode ter indubitavelmente um impacto significativo no comércio chinês, em particular se for direcionada para o importante setor industrial. 

No entanto, os 50 mil milhões de dólares alvo de direitos aduaneiros perfazem apenas 2% do total das exportações chinesas. Parece haver consenso em calcular que esses direitos aduaneiros apenas irão abrandar o crescimento chinês em 0,1–0,2% no máximo. Mesmo assim, só se os direitos aduaneiros forem aplicados a um leque mais alargado de bens chineses que contabilizem 200 mil milhões de dólares, ou seja, 40% das exportações chinesas para os EUA.

Além disso, a China tem muito mais margem de manobra para apoio do Estado de natureza fiscal, caso seja necessário, e as autoridades não estão a tentar aumentar a sua popularidade nesta altura, ao contrário do Presidente Trump que enfrenta eleições num futuro próximo.

Mercados emergentes: vencedores e perdedores

No entanto, não é apenas a China que será afetada pelo aumento dos direitos aduaneiros. Muitas vezes, embora um bem seja exportado da China para os EUA, muitos dos componentes são, na realidade, produzidos noutros locais. No comércio chinês, cerca de 35% do valor acrescentado nas exportações tem origem noutros países.

A nossa análise mostra que os direitos aduaneiros sobre as exportações chinesas afetam bastante mais os mercados emergentes do que os direitos sobre as exportações dos EUA, e que os efeitos negativos estarão concentrados nos mercados emergentes asiáticos.

Gráfico 2: Os exportadores asiáticos suportarão o fardo da subida dos direitos aduaneiros.

No entanto, pode haver quem ganhe com os direitos aduaneiros, dado que a China e os EUA poderão procurar substituir o fornecimento dos bens afetados devido à subida dos custos. Os dados sugerem que os direitos aduaneiros da China sobre os bens norte-americanos irão provavelmente beneficiar mais os fornecedores dos mercados desenvolvidos do que os dos mercados emergentes. No entanto, há mais espaço para os mercados emergentes tirarem partido dos direitos aduaneiros dos EUA sobre a China dado que os produtos chineses se tornarão menos competitivos no mercado norte-americano.

Os mercados emergentes oferecem alguns portos de abrigo potenciais caso a tempestade comece a formar-se. O petróleo não deverá ser afetado pelos direitos aduaneiros, protegendo exportadores como a Malásia, México e Rússia. De igual modo, o grosso das exportações da Hungria e Polónia encontra-se no seio dos EUA e, deste modo, estão isentas. Os que têm uma exposição limitada à procura externa e grandes mercados internos, como o Brasil e a Índia, também deverão ficar protegidos de uma guerra comercial.

Japão: direitos aduaneiros sobre as exportações chinesas serão muito relevantes

O comércio é muito importante para o Japão, com as exportações a representarem 18% do PIB. Numa primeira análise, a escalada de tensões comerciais entre os EUA e a China constituem uma grave preocupação, dado que estas economias são os dois maiores parceiros de exportações do Japão.

No entanto, na realidade, o impacto dos direitos aduaneiros anunciados será mínimo. Os direitos aduaneiros de 25% sobre os produtos de aço e alumínio poderão afetar apenas 2% das exportações japonesas para os EUA e 0,07% do PIB. O crescimento será mais afetado se os EUA avançarem com a aplicação de direitos aduaneiros sobre a maquinaria e equipamento de transporte, pois estes constituem 76% das exportações do Japão para os EUA.

Uma maior abrangência da carga aduaneira terá um efeito maior devido ao lugar importante ocupado pelo Japão nas cadeias de distribuição quer dos EUA quer da China. A exposição é maior na cadeia de distribuição das exportações chinesas para os EUA do que nas exportações dos EUA para a China. Deste modo, o Japão está indiretamente mais vulnerável aos direitos aduaneiros impostos pelos EUA aos produtos chineses do que vice-versa.

Gráfico 3: Países mais expostos aos direitos aduaneiros dos EUA e da China através da cadeia de distribuição

Quaisquer referências a títulos mobiliários, setores, regiões e/ou países são apenas para fins ilustrativos e não devem ser interpretadas como aconselhamento ou recomendação para comprar ou vender.

O valor dos investimentos e o rendimento proveniente destes podem aumentar ou diminuir e os investidores podem não conseguir recuperar a quantia originalmente investida.

 



[1] THAAD (Área limite de defesa a grande altitude)